“E onde sentes isso no corpo?”

É uma pergunta cada vez mais comum quando trabalhamos emoções com crianças.

Às vezes a resposta chega depressa:

“Na barriga.”

“O coração está muito rápido.”

“Tenho a garganta apertada.”

E outras vezes chega simplesmente:

“Não sei.”

Esse “não sei” pode ser muito mais interessante do que parece.

Pode significar que a criança ainda está a aprender a reparar nos sinais do corpo. Pode significar que existem várias sensações ao mesmo tempo. Pode ser difícil encontrar palavras. O sinal pode ser demasiado subtil, demasiado intenso ou simplesmente ambíguo.

E pode também significar que estamos a pedir ao corpo uma clareza que ele nem sempre tem.

O corpo dá-nos informação. Nem sempre nos dá uma legenda.

Chamamos interocepção ao processo através do qual percebemos e interpretamos sinais que vêm de dentro do corpo: fome, sede, temperatura, tensão muscular, batimento cardíaco, respiração, necessidade de ir à casa de banho, náusea, dor ou alterações associadas aos nossos estados emocionais.

É uma peça importante do desenvolvimento socioemocional.

Uma revisão sistemática recente sobre interocepção em crianças e jovens encontrou associações com regulação emocional, competências socioemocionais, funções executivas, processamento sensorial e funcionamento escolar. Ao mesmo tempo, os autores chamam a atenção para uma ideia essencial: reparar mais no corpo não conduz automaticamente a uma melhor regulação. Importa também a forma como esses sinais são interpretados e integrados com outras capacidades da criança. [1]

Por outras palavras, sentir é uma parte do caminho.

Depois vem perceber o que aquela sensação pode significar.

E depois decidir o que fazer com essa informação.

A mesma sensação pode contar histórias diferentes

Um coração acelerado pode surgir quando uma criança está assustada.

Também pode surgir quando correu, quando está entusiasmada, quando espera a sua vez num jogo ou quando vai fazer algo pela primeira vez.

Uma barriga estranha pode acompanhar ansiedade. Pode ser fome. Pode ser vontade de ir à casa de banho. Pode ser excitação. Podem ser várias coisas ao mesmo tempo.

Por isso, quando trabalhamos interocepção com crianças, mapas demasiado rígidos podem criar uma ilusão de precisão:

coração rápido = medo

punhos apertados = zanga

borboletas na barriga = ansiedade

Estas associações podem ajudar a começar uma conversa. Funcionam melhor como hipóteses do que como traduções fixas.

A investigação sobre interocepção está precisamente a afastar-se de uma visão demasiado simples. Uma Perspective recente sobre interocepção no autismo salienta que o campo tem dependido excessivamente de tarefas como contar batimentos cardíacos e de questionários de autorrelato. Estas medidas podem ser influenciadas por atenção, expectativas, estratégias cognitivas, ansiedade, alexitimia e outras características individuais. Os autores defendem uma compreensão multidimensional e desenvolvimental da interocepção. [2]

O corpo fornece sinais.

O cérebro procura dar-lhes significado dentro de um contexto.

E essa interpretação nem sempre chega imediatamente.

“Não sei” também é uma resposta

Há algo importante que podemos ensinar quando perguntamos a uma criança pelo que acontece dentro dela:

ela não precisa de acertar.

Podemos abrir mais possibilidades:

“Reparas em alguma coisa?”

“Está confortável, desconfortável ou ainda não sabes?”

“É uma sensação forte ou pequenina?”

“Consegues perceber onde começa?”

“Há mais do que uma coisa ao mesmo tempo?”

“Queres experimentar outra palavra?”

“Podemos ficar no ‘não sei’ por agora.”

Esta última possibilidade tem valor.

Porque desenvolver consciência corporal também envolve aprender a tolerar alguma incerteza sobre aquilo que sentimos.

E quando o corpo é vivido de outra forma?

Esta questão torna-se especialmente importante quando pensamos em neurodiversidade.

A experiência corporal e sensorial varia muito entre crianças. Para algumas, determinados sinais internos podem ser difíceis de perceber até se tornarem muito intensos. Outras podem reparar neles muito cedo ou vivê-los com grande intensidade.

O mesmo acontece com o mundo sensorial exterior.

Texturas, ruídos, luz, movimento, temperatura ou proximidade física podem ter impactos muito diferentes de criança para criança.

Um estudo recente com crianças e jovens autistas dos 8 aos 15 anos ajuda a mostrar esta complexidade. Os participantes receberam estímulos táteis desagradáveis enquanto os investigadores observavam a atividade cerebral através de fMRI. Numa condição, prestavam atenção à experiência; noutra, utilizavam uma estratégia de reavaliação cognitiva e descreviam objetivamente as características da sensação. [3]

A estratégia alterou a resposta neural dos participantes autistas. Contudo, eles continuaram a avaliar a sensação como desagradável. A redução da aversividade subjetiva apareceu apenas no grupo de desenvolvimento típico. [3]

É um único estudo, com várias limitações, e não permite transformar o resultado numa regra sobre crianças autistas.

Ainda assim, oferece uma pergunta pedagógica muito importante:

E se uma criança conseguir regular-se e continuar a achar aquela experiência profundamente desagradável?

As duas coisas podem coexistir.

Regulação também pode levar a um limite

Imagine uma atividade sensorial.

Uma criança toca num gel viscoso e retira imediatamente a mão.

Podemos incentivar curiosidade:

“Queres experimentar com um dedo?”

“Preferes usar uma colher?”

“Queres observar primeiro?”

Também podemos reconhecer a informação que já apareceu:

“O teu corpo está a dizer que isto é muito desagradável para ti.”

A partir daí, a criança pode experimentar uma estratégia.

Pode aproximar-se devagar.

Pode querer compreender melhor a sensação.

Pode escolher outro material.

Pode decidir parar.

Essa decisão também pode ser expressão de consciência corporal, autonomia e regulação.

O objetivo educativo ganha profundidade quando passa de conseguir tolerar a experiência para conseguir perceber o que está a acontecer, comunicar e escolher uma resposta adequada.

Reparar. Dar sentido. Escolher.

No Time IN, podemos pensar o trabalho interoceptivo através de três movimentos:

01

REPARAR

O que está a acontecer dentro de mim?

Há calor? Frio? Pressão? Movimento? Tensão? Vazio? Energia? Dor? Uma sensação difícil de explicar?

Também existe espaço para:
“Ainda não reparo em nada.”
02

DAR SENTIDO

O que poderá esta sensação querer dizer?

Existe alguma coisa que aconteceu antes?

Posso estar com fome? cansado? entusiasmado? assustado? sobrecarregado?

Há várias possibilidades?

Também existe espaço para:
“Ainda não sei.”
03

ESCOLHER

O que preciso agora?

Quero continuar?

Quero parar?

Preciso de espaço?

Quero ajuda?

Existe alguma estratégia que posso experimentar?

A autonomia cresce precisamente nesta última parte. Reconhecer o corpo ganha significado quando essa informação pode influenciar aquilo que fazemos a seguir.

O adulto também precisa de suportar a incerteza

Existe ainda outra camada.

Quando perguntamos a uma criança “o que estás a sentir?”, muitas vezes esperamos uma resposta.

Quando ela não sabe, podemos sentir vontade de preencher o espaço:

“Estás nervoso.”

“Isso é ansiedade.”

“Estás zangada.”

Às vezes acertamos.

Outras vezes estamos a colocar a nossa interpretação sobre a experiência da criança.

Podemos oferecer linguagem sem fechar a investigação:

“Pergunto-me se poderá ser nervosismo.”

“Pode ser fome. Podemos observar um bocadinho.”

“Há alguma palavra destas que se aproxima?”

“Não precisamos de descobrir já.”

Desta forma, o adulto funciona como apoio à construção de significado, mantendo a experiência da criança no centro.

Ensinar a ouvir o corpo pode começar por ensinar que o corpo é complexo

A interocepção oferece uma base muito interessante para o desenvolvimento socioemocional. A investigação em crianças continua, porém, relativamente pequena e metodologicamente diversa. A revisão sistemática publicada este mês encontrou apenas 13 estudos infantis e juvenis relevantes e salienta que grande parte da evidência depende de autorrelato, com pouca investigação direta em contextos educativos. [1]

Vale a pena conservar as duas ideias ao mesmo tempo.

O corpo é uma fonte preciosa de informação.

E aprender a escutá-lo é um processo gradual, contextual e profundamente individual.

Algumas crianças dirão imediatamente:

“Está aqui.”

Outras precisarão de tempo.

Outras encontrarão sinais contraditórios.

Outras saberão apenas:

“Isto não está bem para mim.”

E há muita competência a nascer também aí.

Porque aprender a conhecer o próprio corpo inclui reparar, investigar, duvidar, dar significado, comunicar e, progressivamente, fazer escolhas a partir daquilo que descobrimos.

Às vezes, o começo pode ser simplesmente:

“Ainda não sei. Vamos descobrir.”

DA INVESTIGAÇÃO PARA A PRÁTICA

Dos estudos que lemos às experiências que criamos.

Referências principais

  1. Suprihatiningrum, J. & Wahyuningsih, I. (2026). Interoceptive Awareness in School-Aged Children and Youth: A Systematic Integrative Review and Implications for School Health. Journal of School Health, 96(9), e70227.
  2. Savickaite, S., Li, R. & Nagai, Y. (2026). Beyond Heartbeats: Re-thinking Interoception in Autism with VR and AI Approaches. Frontiers in Neural Circuits.
  3. Shah, U. T. et al. (2026). Cognitive reappraisal modulates neural responses to aversive sensory stimulation in autistic youth. Journal of Child Psychology and Psychiatry.